segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Por dentro das Histórias…

“O universo começou como uma história… somos parte humana, parte histórias.”

As metáforas e as histórias terapêuticas

O uso de metáforas nos textos infantis pode ajudar as crianças a resolver suas dificuldades. Desde os arquétipos de Jung aos relatos de Erickson, passando pelas doutrinas da Bíblia ou por todos os contos que durante séculos se foram contando às crianças, os usos das metáforas sempre serviram para a mesma coisa: Influenciar o inconsciente das pessoas.

Por vezes, as crianças possuem sentimentos dolorosos ou situações que as deixam angustiadas, mas como não têm ferramentas necessárias para lidar com estas realidades, acabam por manifesta-las através de comportamentos difíceis, tornando-se agressivas, ansiosas e deprimidas. Para conseguirem ultrapassar estes sentimentos, as crianças precisam de pensar sobre eles, digeri-los, para conseguirem crescer de foram saudável e equilibrada.

Desta forma, a ajuda dos adultos é essencial e uma boa história, pode ter um papel verdadeiramente terapêutico.Com as histórias, a criança descentra-se de si, e ao ouvir o “Era uma vez…” ou “Há muitos, muitos anos..”, os problemas, as angustia, as dificuldades que está a ouvir já não são os dela… São de um príncipe, de um animal, de um rei, ou de um dragão. Assim a criança não se sente exposta, humilhada ou envergonhada. Para elas pode ser um enorme alivio encontrar nas imagens e metáforas, uma forma de expressar os seus sentimentos que antes não tinham nomes, mas que exigiam compreensão. Inconscientemente, esta história está a trabalhar o seu problema e as suas angústias. As histórias funcionam como uma ingressão ao mundo interior das crianças.

As histórias têm a qualidade de nos tocar na alma, nos nossos corações, mover-nos e curar-nos.

Como criar uma metáfora / uma história terapêutica:

1. Decida em que consiste o problema ou dificuldade e quem estão implicados. Para isso adote os princípios da boa formulação de objetivos (formulado em positivo, que seja auto mantido, que seja ecológico, etc.).

2. Identifique os protagonistas. Que personagens intervêm na história real? Há pais e filhos? Há figuras de autoridade? Imagine que tivesse que transformar a situação real em uma obra de teatro, que personagens interviriam?

3. Transforme os personagens reais em abstrações, animais ou objetos, mesmo que mantendo as relações referenciais. Talvez os pais se possam converter em Reis ou a personagem de autoridade em um bicho-papão que vive em um castelo. Se estivermos a falar de relações interdependentes, é possível que nos sirva transformar os personagens reais em planetas que giram ao redor do sol ou em uma família de coelhos que vivem em uma toca. Quantos mais elementos se transformem e se integrem no relato, mais persuasiva será a metáfora.

4. Estabeleça as relações entre os personagens inventados. Se estivermos a falar de um problema de medo, podemos fazer com que o planeta menor tenha medo de sair da órbita ou que seu espaço seja invadido por um planeta exterior.

5. Encontre uma saída, uma solução para o problema. É possível que o planeta pequeno encontre uma forma de evitar que haja invasões que desestabilizem sua relação com o resto do sistema solar.

6. Conecte a solução com um novo recurso. Que novo recurso necessita o protagonista para vencer com brilho o problema? O pequeno planeta pode dispor, por exemplo, de um raio cheio de carinho que impeça se afastar dos demais planetas.

7. Estabeleça uma ponte entre o problema, o recurso e a solução.

Fonte dos sete passos para criar metáforas: http://www.pnlnet.com

Artigos que eu escrevi para a Revista Educadores de Infância

Outras de encantar…

Eu e a minha princesa Carolina… Há vida nas histórias.

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Enquanto, professora e escritora tenho tido experiências verdadeiramente deliciosas e desafiantes, umas que me deixam a sorrir durante umas boas horas, outras que me ajudam no meu processo criativo e outras ainda que me fazem crescer enquanto pessoa e me ajudam a ver o mundo com outros olhos.

Vou partilhar convosco, como uma jovem, a Carolina me tornou uma pessoa mais atenta aos outros e me despertou para uma maior humanidade. A minha princesa Carolina é portadora de deficiência mental, com características autistas, é uma menina diferente, mas que graças à Escola Inclusiva se integrou numa turma do terceiro ciclo.

Inicialmente, tive algumas dificuldades e inseguranças, mas a minha vontade de trabalhar com a Carolina, superava todos os receios. O que me deixava mais inquieta e insegura eram as ausências e o alheamento da Carolina que se tornavam desconfortáveis. Com muita persistência, fui desbravando os muros que nos separavam, fui tateando, observando e escutando. Um dia, apercebi-me, que a Carolina tinha uma apetência especial pelas histórias e pelo mundo do fantástico.

Foi a partir daqui que eu a consegui cativar.

Eu contava uma história e a Carolina bebia as minhas palavras com uma avidez surpreendente. Apercebi-me que o mundo do Era uma vez… lhe possibilitava uma enorme felicidade e a trazia do seu mundo das ausências. À medida que nos fomos conhecendo melhor dei-lhe para a mão alguns fantoches das histórias que eu ia contando. Foi aqui que a Carolina se revelou de uma forma surpreendente.

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Os fantoches passaram a ser um prolongamento das suas emoções, através deles, a Carolina expressava os seus medos e anseios. Apercebi-me também, que os contos de fadas eram os seus preferidos, pois estes contêm uma estrutura e um mecanismo que ajudam as crianças a superar algumas das suas dúvidas e inquietudes. Rapidamente, a Carolina se identificou com as heroínas das histórias (a princesa, a menina, o capuchinho vermelho e a rainha) pois trazia-lhe confiança e poder. Por outro lado, descobriu também, que podia revelar o seu lado mais agressivo e conflituoso … e passou por isso a adorar fazer de lobo mau, bruxa, dragão e monstro, sem ter qualquer pressão social.

Hoje, cada vez, que a Carolina vem ter comigo para trabalhar, muda de voz, de postura e os seus olhos brilham… é o momento dela, é a hora das histórias, dos fantoches que a ajudam a catalisar as suas emoções e a largar umas belas gargalhadas terapêuticas.

E, eu aprendi tanto, ao observar a doçura, a sabedoria e a generosidade da Carolina que lhe estou grata para sempre.

Como diz a Carolina…vitória, vitória acabou-se a história, mas eu quero outra e mais outra.

Beijinhos de Algodão Doce

Vanda Furtado Marques

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